Fernanda Aparecida Yamamoto
O ensino médio brasileiro enfrenta desafios persistentes: baixos índices de aprendizagem, altas taxas de evasão e uma desconexão significativa entre a escola e a vida real dos jovens. A cada 100 estudantes que ingressam no ensino fundamental, apenas cerca de 70 chegam ao ensino médio, segundo a Academia Brasileira de Ciências (2022). O principal motivo para essa queda é a necessidade de trabalhar. Entre os que permanecem na escola, os resultados também preocupam: o Brasil continua entre os últimos colocados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa 2022), e o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do ensino médio segue abaixo das metas projetadas pelo PNE (Plano Nacional de Educação).
Há, contudo, evidências consistentes de que a educação técnica integrada ao ensino médio contribui para enfrentar parte desses problemas. No Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) 2019, as escolas com cursos técnicos integrados obtiveram desempenho superior em Língua Portuguesa e Matemática em relação ao ensino médio tradicional. Entre as melhores escolas públicas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), muitas são instituições de educação profissional. Esses dados desmontam o mito de que a formação técnica reduziria a qualidade da formação acadêmica. Pelo contrário: mostram que é possível combinar excelência acadêmica e formação profissional.
As experiências bem-sucedidas no país mostram que é possível conciliar qualidade acadêmica, inserção social e empregabilidade
O PNE estabeleceu como meta a duplicação das matrículas no ensino médio técnico até 2024, e os dados mais recentes do Censo Escolar (Inep, 2023) indicam crescimento contínuo dessa modalidade. A expansão, no entanto, não pode se limitar ao aumento de vagas: é preciso garantir qualidade, integração curricular e sentido para os estudantes.
Alguns modelos inovadores de ensino médio técnico têm se destacado por sua capacidade de unir formação geral e formação profissional em uma mesma jornada formativa. Essa integração curricular é feita por áreas do conhecimento, evitando a fragmentação disciplinar e promovendo projetos interdisciplinares que aproximam teoria e prática. Cada etapa do curso é orientada por intencionalidades formativas, como o autoconhecimento, a emancipação e o desenvolvimento da autonomia, elementos centrais para que os jovens construam seus projetos de vida.
Outro aspecto importante é a avaliação contínua, que substitui a ênfase nas provas tradicionais por processos que valorizam o percurso do estudante e sua capacidade de aplicar conhecimentos em contextos reais. Além disso, oficinas e atividades extracurriculares, como robótica, debates, iniciação científica e produção cultural, ampliam o repertório técnico e sociocultural, fortalecendo o protagonismo juvenil.
As experiências bem-sucedidas no país mostram que é possível conciliar qualidade acadêmica, inserção social e empregabilidade. Estudos recentes do Itaú Educação e Trabalho (2023) apontam que trabalhadores com ensino médio técnico têm remuneração média até 32% superior à de jovens com apenas o ensino médio regular. A mesma pesquisa indica que a taxa de desemprego entre os egressos da educação profissional é significativamente menor (7,2%, contra 10,2% entre os demais). Ao mesmo tempo, muitos seguem para o ensino superior, demonstrando que a formação técnica não fecha portas, ela amplia horizontes.
A expansão da educação profissional e tecnológica no Brasil pode representar um caminho estratégico para reduzir a evasão, melhorar a aprendizagem e dar significado à experiência escolar. Porém, mais do que preparar para o trabalho, o ensino médio técnico deve preparar para a vida pós-escola, seja no ensino superior, na inserção profissional ou no exercício pleno da cidadania.
O futuro do ensino médio no Brasil pode, e deve, ser técnico. Mas, sobretudo, precisa ser significativo para os jovens, para que a escola deixe de ser apenas uma etapa de passagem e se torne um espaço de construção de projetos de vida.
Fernanda Aparecida Yamamoto é doutora em educação e especialista em educação profissional. Pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo), na Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica, coordena as áreas de Pesquisa Aplicada em Educação Profissional e de Ensino Médio Técnico da rede do Senac São Paulo. É autora do livro Projeto de Vida: autoconhecimento, emancipação e autonomia. Visiting Scholar na Universidade de Stanford. Pós-doutorado na Faculdade de Educação da USP.
Por: Nexo Jornal