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Autoavaliação antirracista: o que o ano letivo revela sobre suas práticas?

Revisar expectativas, registros e decisões pedagógicas sob a lente antirracista é essencial para evitar vieses e garantir equidade na aprendizagem

Por Lavini Castro

O fim do ano letivo nos coloca diante de relatórios, planejamentos e revisões de percurso. Mas antes de fechar mais um ciclo, eu proponho uma pausa que, para mim, é essencial: olhar para as nossas próprias práticas com uma lente antirracista.

Sem esse olhar, querido colega, corremos o risco de reproduzir, ainda que de forma inconsciente, vieses que prejudicam o aprendizado e o desenvolvimento de estudantes negros e de alunos racializados.

A escola é um espaço social e político que permite construir novas possibilidades de ação e reflexão. Ainda assim, o cotidiano no chão escolar revela o quanto falhamos em reconhecer o racismo como problema estrutural que atravessa relações, percepções e decisões.

Se não partimos desse reconhecimento, não seremos capazes de identificar os vieses raciais que internalizamos ao longo da vida.

O que são, afinal, vieses inconscientes?
Como aponta a professora Adriana Cunha, em uma reportagem da Nova Escola, vieses são pensamentos automáticos que formamos sem perceber e que influenciam julgamentos e atitudes, como supor que meninas “se comportam melhor” ou acreditar que altas habilidades não existem em escolas públicas.

Pesquisadores como Mazharin Banaji, Tony Greenwald e Brian Nosek, criadores do Projeto Implícito, definem vieses inconscientes como preferências ocultas que moldam percepções e ações.

Esses atalhos mentais são estratégias do cérebro para economizar energia, criando estereótipos que agilizam respostas: ver alguém chorando e supor que está triste; ver um estudante de origem oriental e assumir que é “naturalmente muito inteligente”.

Quando falamos de viés racial, lidamos com estereótipos construídos historica e profundamente marcados pelo racismo estrutural brasileiro, uma herança de quase quatro séculos de escravidão e da construção do imaginário que associa pessoas negras ao trabalho braçal, à pobreza, à hipersexualização e à inferioridade intelectual.

Esses estereótipos seguem atuando hoje, naturalizando a presença de pessoas negras em posições subalternas e estranhando sua presença em espaços de liderança, prestígio ou excelência acadêmica.

Quando o viés aparece na sala de aula
Para ilustrar como esses vieses podem se manifestar, imagine dois alunos — um negro (ou racializado) e um branco — com desempenho semelhante em determinado trabalho. Diante do mesmo resultado, não é algo fora do comum esses dois caminhos:

O professor tende a atribuir o baixo desempenho do aluno branco a fatores externos: noites mal dormidas, doença, problemas pessoais. A expectativa continua alta, pois o aluno branco é visto como naturalmente capaz. Essa visão reforça a lógica racista de superioridade da branquitude e resulta em mais incentivo e apoio pedagógico para esse estudante.

Influenciado por estereótipos, o professor atribui o baixo desempenho do aluno negro a fatores internos e permanentes, como uma suposta incapacidade ou limitação intelectual. Esse olhar, sustentado pela estrutura racista que inferioriza corpos negros, produz expectativas mais baixas, menos desafios e práticas pedagógicas empobrecidas. Aos poucos, o estudante internaliza essas mensagens e confirma, no desempenho, o viés que o professor projetou.

Consciência é o primeiro passo
Mas você pode se perguntar, se o racismo é estrutural, como romper com os vieses que ele produz? O caminho começa pela consciência, fruto do letramento racial, da escuta e de escolhas intencionais.

Como reforça Djamila Ribeiro, a sociedade reconhece o racismo, mas raramente se assume racista. O desafio, então, professor, é admitir que fomos formados dentro dessa estrutura e que, portanto, é impossível não reproduzir seus efeitos sem posicionamento crítico e constante.

Isso exige acolher denúncias de violência racial, evitar minimizar experiências, não ridicularizar nem romantizar o racismo. Exige, sobretudo, autorreflexão honesta.

Perguntas para sua autoavaliação antirracista
Para iniciar esse processo, proponho algumas perguntas orientadoras:

Minhas expectativas foram diferentes para crianças negras e brancas?
Baixas expectativas geram menos incentivo, menos desafios e menor desempenho — o viés se confirma.

Eu reconheci criatividade, talento e protagonismo de crianças negras?
A invisibilidade de talentos negros reforça quem a escola considera como “pertencente” ao sucesso.

Quem eu elogiei publicamente? Quem corrigi com mais rigidez?
A rigidez desproporcional mina vínculo e confiança e reforça estigmas.

Quem teve seu comportamento interpretado mais rapidamente como indisciplina?
Adultização e criminalização atingem especialmente crianças negras.

Registrei avanços com o mesmo detalhamento para todos?
Registros que focam apenas nos déficits de estudantes negros distorcem a percepção de sua trajetória real.

Tenho considerado contextos e desigualdades estruturais que afetam meus estudantes negros?
Avaliar não é apenas atribuir notas; é reconhecer condições desiguais de aprendizagem.

Como transformar reflexão em ação no próximo ano letivo
Uma autoavaliação profunda é o ponto de partida para planejar 2026 com intencionalidade antirracista. Identificar os próprios vieses é o passo mais difícil, porém, é o mais transformador. A partir disso, o professor pode estabelecer metas evidentes, como: elogiar semanalmente progressos de estudantes negros, de forma intencional e consistente; trocar a punição rápida por investigação e apoio antes de qualquer repreensão e registrar avanços com foco positivo para todos.

Para garantir que isso se traduza em prática cotidiana, algumas ferramentas podem ajudar:

Anotar nos planejamentos uma pergunta-guia:
“Como garantir protagonismo ou escuta qualificada de [nome do estudante] nesta aula?”

Rever critérios de avaliação:
Perguntar se eles realmente medem aprendizagem — ou se medem acesso à linguagem formal, estabilidade emocional ou privilégio estrutural.

Diversificar instrumentos avaliativos:
Incluir formatos orais, visuais e práticos permite que diferentes formas de inteligência apareçam.

O combate aos vieses raciais começa no íntimo da prática docente. E fazer essa revisão, agora, ao final do ano letivo, é um passo fundamental para que 2026 seja um ano de escolhas mais conscientes, equitativas e comprometidas com a aprendizagem de todos os estudantes.

Por: Nova Escola

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