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8 erros ao ensinar sobre povos indígenas e como evitá-los

Algumas práticas escolares ainda reproduzem estereótipos. Veja o que não fazer e caminhos que podem ser adotados em sala de aula

Por Nairim Bernardo

De acordo com dados do Censo 2022, o Brasil abriga cerca de 1,7 milhão de pessoas indígenas, pertencentes a 391 povos e falantes de 295 línguas distintas. Esses números indicam a enorme diversidade social e cultural existente entre os povos indígenas. Reconhecer essa pluralidade é um passo essencial para que a escola compreenda que a abordagem dessa temática exige sensibilidade, conhecimento e não pode ser tratada de forma simplificada.

Segundo Delmira de Almeida Peres, coordenadora adjunta do Programa Saberes Indígenas na Escola, Núcleo UNILA, e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Estadual de Maringá (UEM/PR), quando reproduz estereótipos, a escola ensina exclusão ao invés de cidadania intercultural.

“Os estereótipos produzem impactos profundos: reforçam o racismo estrutural e epistemológico, naturalizam a invisibilização dos povos indígenas, impedem estudantes de compreenderem a diversidade brasileira, produzem preconceito e discriminação nas escolas e formam cidadãos com visão histórica incompleta do país”, diz.

Em março de 2008, foi homologada a Lei n.º 11.645, que torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino Fundamental e Médio. Entretanto, não há essa obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino superior para os cursos de formação de professores (licenciaturas), o que reflete no que é ensinado na escola.

Erros comuns e estratégias para substituí-los
Para desmistificar alguns desses estereótipos, NOVA ESCOLA conversou com especialistas e organizou uma lista com atividades equivocadas e boas práticas para substituí-las.

  1. Tratar todas as etnias como uma só
    No dia 19 de abril é celebrado o Dia dos Povos Indígenas. O uso do plural evidencia que não se trata de um, mas de vários e diferentes povos. Também é interessante notar que alguns povos nunca interagiram entre si e outros têm um histórico de rivalidade. Assim sendo, a cultura de cada um tem aspectos específicos, por mais que em muitos casos se assemelhem em alguns aspectos.

O que pode ser feito: É importante que o professor pesquise sobre a diversidade de povos e apresente esses resultados para a turma. É possível organizar as informações em tabelas, gráficos e mapas para que os alunos vejam a quantidade de pessoas e povos indígenas no Brasil e como estão distribuídos pelo território.

Ao levar qualquer referência cultural para a turma – uma brincadeira, música, receita, grafismo, narrativa, palavra – também é importante dizer de qual ou quais povos ela é.

  1. Limitar os povos indígenas ao passado
    De 2010 (quando havia ocorrido o último Censo) para 2022, o IBGE mudou sua metodologia de pesquisa. De “qual é a sua cor?”, a pergunta passou a ser “você se considera indígena?” em locais que não são oficialmente terras indígenas, mas onde se sabe que há presença de povos originários. O resultado: de 0,47%, o percentual da população brasileira que autodeclarada indígena saltou para 0,83%.

“Na escola, muitas aulas apresentam os indígenas apenas no período da colonização, como se não existissem hoje. Os povos indígenas são contemporâneos, produzem conhecimento, ocupam universidades, utilizam tecnologias e mantêm suas culturas vivas e dinâmicas”, diz Delmira.

O que pode ser feito: Apresentar às crianças e aos adolescentes artistas, atletas, pesquisadores, comunicadores e influenciadores indígenas. Ao entrar em contato com essas referências, os estudantes ampliam sua compreensão sobre a diversidade dos povos originários e reconhecem que eles estão presentes, atuantes e contribuindo de maneira significativa em diferentes esferas da sociedade contemporânea.

  1. Associar apenas à floresta ou ao “natural”
    De acordo com o Censo 2022, há presença indígena em 4.833 municípios brasileiros e 53,97% vivem em áreas urbanas. Dos 5.568 municípios brasileiros, mais o Distrito Federal e Fernando de Noronha, 4.832 registraram pelo menos um residente indígena. Mais de cinco mil habitantes declarados indígenas foram registrados em 79 municípios.

“Por incrível que pareça, um professor da minha filha já disse que os “índios” ficam na aldeia, não fazem nada, só vivem de caça e pesca, andam pelados, só convivem com os animais. Quando as crianças reproduzem essas falas, é porque elas ouviram de alguma pessoa ou viram algum material”, critica Débora Dionísio, idealizadora do portal Raízes Indígenas Paulistas, projeto que utiliza a tecnologia para preservar e difundir a cultura originária de São Paulo.

O que pode ser feito: A gestão escolar pode planejar formações para os professores e atividades para a escola a partir da realidade indígena do território em que a escola está. Nas cidades nas quais há terras indígenas, é possível verificar a possibilidade de uma visita ao local.

Quando isso não é possível, algum indígena que seja referência em alguma área pode visitar a escola para uma conversa, oficina, vivência ou formação com a comunidade escolar. É interessante que seja abordada a vivência indígena, muitas vezes, desconhecida naquela cidade.

  1. Desconsiderar os conhecimentos desenvolvidos pelos povos indígenas
    “Dizer que indígenas não produzem conhecimento científico é um modo de desconsiderar saberes ancestrais relacionados à medicina, ecologia, agricultura e astronomia. O conhecimento indígena é uma ciência construída pela observação milenar da natureza”, diz Delmira.

O que pode ser feito: Incentivar que os alunos investiguem saberes dos povos originários para que, com base neles, proponham soluções para questões atuais. Por exemplo: sustentabilidade, desenvolvimento, formas de convivência em comunidade, respeito ao outro, cuidado com a natureza e com os animais, formas de educar uma criança e de lidar com os mais velhos.

  1. Tratar a cultura indígena como folclore
    No Dia dos Povos Indígenas (19 de abril) e no Dia do Folclore Brasileiro (22 de agosto) é comum que narrativas e saberes indígenas sejam citados como pertencentes ao folclore. Entretanto, é importante saber que muitos indígenas consideram que, por uma série de razões históricas, o uso do termo reduz e deslegitima as manifestações espirituais, crenças, línguas e modos de agir dos povos.

Em paralelo, podemos questionar: por que as narrativas espirituais cristãs não são associadas à palavra folclore?

O que pode ser feito: Em primeiro lugar, não abordar a questão indígena apenas em datas comemorativas. Como seus saberes, manifestações culturais e figuras são muitas, podem ser utilizadas em diferentes atividades e de todas as áreas de conhecimento.

As manifestações espirituais de um povo indígena podem ser abordadas do mesmo modo que as de outras cosmologias, e uma atividade as envolvendo pode ser desdobrada em contações de história, desenhos e pesquisas mais aprofundadas.

  1. Ignorar o significado de manifestações culturais
    Em algum momento, é comum que você já tenha passado (como professora ou estudante) pelas seguintes atividades em sala de aula: pintura corporal e criação de cocar de papel. Mas você sabe qual significado tem um cocar para uma pessoa indígena?

“Quando se trabalha os grafismos indígenas, por exemplo, é interessante compreender seu significado. Cada povo tem seu próprio grafismo, então o significado também diz respeito à cultura. Nem todos os povos usam cocar, existem outros elementos simbólicos. Não é apenas um traço de tinta guache ou um cocar que vai valorizar a diversidade dos elementos culturais dos povos, mas o compartilhamento da riqueza dos seus significados”, diz Kauanne Laene da Silva Cabral, professora indígena em Pernambuco.

O que pode ser feito: Ao preparar uma atividade, o professor deve também buscar informações sobre qual significado os símbolos têm para a cultura indígena a qual pertence.

Quando levar a proposta para os alunos, pode compartilhar essas informações, o que poderá despertar ainda mais o interesse. Uma alternativa também é propor que os alunos inspirem-se nos padrões indígenas para propor soluções com base em sua própria cultura.

Por exemplo: se há grafismos indígenas que representam a cobra, pois esse animal faz parte do cotidiano de um povo, qual grafismo os alunos poderiam criar com base nos elementos do seu próprio cotidiano.

  1. Não olhar para os indígenas na comunidade escolar
    “Muitas escolas recebem alunos indígenas e nem fazem ideia disso. Às vezes, uma nova família chega à escola, isso não é compartilhado e a criança indígena e sua cultura passam despercebidas”, comenta Debora Dionísio.

O que pode ser feito: No ato da matrícula, é importante que a escola registre qual é a declaração racial do estudante, com base nos critérios do IBGE (preto, pardo, branco, indígena, amarelo).

Uma vez que a gestão e os professores têm esses dados, é possível pensar em ações que valorizem os saberes das famílias e a diversidade cultural presente em cada sala de aula. Assim, a diversidade aparece não apenas como um conceito, mas como algo presente na história e nos corpos presentes na sala.

  1. Repetir atividades sem intencionalidade pedagógica ou senso crítico
    Ao reutilizar tarefas preparadas há muito tempo, corre-se o risco de desconsiderar a realidade indígena atual ou cair em velhos estereótipos.

“Os professores podem se preparar para trabalhar essa temática, primeiro compreendendo que não se ensina sobre os povos indígenas apenas em datas comemorativas e com atividades não adaptadas para sua realidade. O professor deve compreender que o trabalho sobre povos indígenas deve ser feito com base em estudos e no respeito”, diz a professora Kauanne.

O que pode ser feito: Assim como faz com outros temas, é necessário pesquisar, estudar, compartilhar ideias com os colegas antes de propor uma aula. Além disso, também é importante priorizar materiais preparados por indígenas ou que os tenham como fonte.

Portal Raízes Indígenas Paulistas

Conheça uma fonte de pesquisa sobre a riqueza cultural dos povos indígenas que habitam o Estado de São Paulo

Debora Dionísio mora na Aldeia Indígena Bananal, na Terra Indígena Peruíbe, e é casada com um indígena Tupi, que também é pedagogo. Por ser conhecido na região, muitas pessoas o procuravam, pedindo materiais sobre os povos indígenas, principalmente professores.

Em sua pós-graduação em Ciências e Tecnologia, Debora teve a ideia de fazer um site que reunisse materiais sobre os povos indígenas do Estado de São Paulo com o objetivo de fornecer subsídios e ferramentas para os professores. Indígenas de várias cidades do estado foram consultores. O projeto foi viabilizado com o apoio do Programa de Ação Cultural – ProAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas e do Governo do Estado de São Paulo.

O que você pode encontrar nele:

Informações históricas e culturais sobre as etnias Guarani, Terena, Krenak, Kaingang e Tupi
Mapa com as terras indígenas no estado
Atividades pedagógicas baseadas nas culturas indígenas de São Paulo, alinhadas à BNCC
Links para documentos e livros
Contato dos idealizadores do projeto
“A intenção desse site é trazer o indígena falando sobre si. No geral, os indígenas acham importante falar sobre a sua cultura. Esse compartilhamento os ajuda a mantê-la viva”, diz Debora.

Por: Nova Escola

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