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O Brasil bonito que contrasta com um Brasil ferido

Por Jacir Venturi*

O Brasil convive com contrastes profundos, pois, em meio a obras que impulsionam o desenvolvimento, persistem mazelas que expõem um país ferido por distorções e privilégios. Episódios recentes ilustram o choque entre o Brasil que constrói e o Brasil que sangra.

A Ponte de Guaratuba: o Brasil que constrói.
A nova ponte sobre a Baía de Guaratuba trará benefícios diretos à mobilidade no litoral paranaense, substituindo o sistema de ferry boat (um gargalo histórico na alta temporada) e trazendo um alívio adicional aos usuários: travessia sem pedágio.

Alguns dados da obra:
• Extensão: 1.244 metros.
• Estrutura: quatro faixas de tráfego, ciclovias e calçadas.
• Investimento: cerca de meio bilhão de reais.
• Mão de obra: média de 690 trabalhadores em dois turnos, inclusive em feriados e no carnaval
Nesse tipo de estrutura, o tabuleiro é sustentado por cabos de aço de alta resistência (os estais) ancorados em mastros que transferem o peso para as fundações.

O trecho estaiado, com 320 metros de extensão, é o mais complexo e visualmente marcante, com mastros que alcançam 40 metros de altura. O resultado já está se tornando um novo cartão-postal do litoral paranaense, um marco da gestão estadual e um motivo de orgulho para a engenharia brasileira.

Detalhes da construção
• O tabuleiro é formado por 160 vigas longarinas apoiadas sobre 64 pilares cilíndricos cravados no fundo da baía.
• Na concretagem, formas metálicas recebem armações circulares produzidas no próprio canteiro.
• Caminhões-betoneira navegam sobre balsas para despejar o concreto.
• Uma treliça metálica motorizada posiciona as longarinas — cada uma com 48 metros de comprimento e 75 toneladas.

Foi minha segunda visita à obra, acompanhado de dois engenheiros. Percorremos o tabuleiro da ponte, em especial a parte estaiada e as suas galerias subterrâneas, agora com 91% dos trabalhos concluídos (na primeira visita, em junho de 2025, a execução estava em 60%). Em ambas as ocasiões, tivemos a acolhida gentil do diretor do consórcio e responsável técnico, o engenheiro Luciano Pizzatto.

Voltamos para Curitiba eufóricos: o bom senso prevaleceu sobre entraves burocráticos e ambientais. A obra avança sem atrasos, sem suspeitas de superfaturamento e com forte impacto social positivo, empregando majoritariamente trabalhadores da região litorânea. A inauguração está prevista para o início de abril de 2026.

O Brasil que sangra!

Enquanto a Ponte de Guaratuba simboliza o Brasil que planeja, executa e entrega, há outro Brasil que sangra silenciosamente, drenado por privilégios que desafiam a lógica, a ética e a paciência do contribuinte.

A indignação não é apenas minha. Ecoou hoje no almoço com amigos, todos perplexos. O próprio ministro do STF, Flávio Dino, classificou como “multiplicação anômala” os penduricalhos remuneratórios. Não se trata de um crítico externo, mas de alguém de dentro do sistema reconhecendo o óbvio.

Estima-se que aproximadamente 15 bilhões por ano sejam gastos com penduricalhos destinados a uma parte do funcionalismo público. Isso equivale a umas 30 pontes de Guaratuba. Há um detalhe que torna o quadro ainda mais grave: boa parte dessas verbas é isenta de imposto de renda e de contribuição previdenciária, ou seja, o privilégio é duplo: ganha-se muito e contribui-se pouco.

E não se trata de generalizar. O fato é que uma parcela do funcionalismo recebe benefícios que extrapolam o razoável, enquanto outros servidores, que exercem funções de responsabilidade semelhante, não têm acesso a nada disso. É justamente nessa disparidade que reside a anomalia.

Segundo dados publicados na imprensa, apenas em 2025 foram pagos R$ 10,3 bilhões em supersalários no Judiciário, um salto de 43% em relação ao ano anterior. E não é só infraestrutura que se perde: são salas de aula, postos de saúde, ambulâncias, viaturas e policiais que deixam de chegar às ruas.

A Justiça do Trabalho pagou R$ 1 bilhão acima do teto constitucional em 2025. E, em ao menos um estado, desembargadores receberam, em média, cerca de 148 mil reais brutos por mês, isto é, mais de 100 mil reais acima do teto e um aumento de 140% em relação ao ano anterior. Até o CNJ admite que esses gastos acima do limite constitucional cresceram expressivamente.

Esses penduricalhos se espalham como ervas daninhas por várias esferas do poder, corroendo ainda mais a confiança da população e desafiando nossa capacidade de indignação. O mais grave é que são práticas que se perpetuam porque beneficiam justamente quem deveria coibi-las.

Temos, sim, o Brasil bonito, que trabalha duro, constrói e abre caminhos, mas temos também o Brasil das distorções, dos privilégios blindados, das brechas que se eternizam. Os penduricalhos não são os únicos sintomas de um Brasil ferido: presenciamos uma preocupante promiscuidade de gestores públicos envolvidos em práticas pouco republicanas, como no ainda pouco desvendado caso Banco Master – e muito mais parece estar por vir.

Se “há algo de podre no reino da Dinamarca”, o que diria Hamlet do Brasil? Aqui, a tragédia real é assistirmos ao mesmo ato se repetir, enquanto o pano insiste em não cair. Como sociedade, precisamos decidir qual Brasil queremos fortalecer — e qual precisamos combater.

*Jacir J. Venturi é formado em Engenharia e Matemática pela UFPR. Foi professor e diretor de escolas públicas e privadas, além de docente da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo. Nas visitas à ponte em construção (em junho/25 e em março/26), o autor esteve acompanhado de seus dois filhos engenheiros.

Por: O Estado de São Paulo

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