Excesso de telas e falta de silêncio afetam a atenção de crianças e jovens e ampliam o debate sobre proteção digital, com o ECA em discussão no ambiente online
por Débora Garofalo
Vivemos um tempo no qual a infância e a juventude não podem mais ser compreendidas fora do ambiente digital. As redes sociais, os jogos online, os aplicativos de mensagens e as plataformas de conteúdo não são apenas ferramentas — são territórios de convivência, construção de identidade e socialização. É nesse ambiente que surgem três fenômenos interligados:
A necessidade de proteção no ambiente digital
O desaparecimento do silêncio
A crise crescente de concentração na sala de aula
Juntos, eles expõem um dos principais desafios da educação hoje: a infância conectada.
Avanços e riscos do ambiente digital
A chamada “infância conectada” trouxe avanços inegáveis. Nunca foi tão possível acessar informações, aprender de forma autônoma e se expressar. No entanto, esse ambiente também expõe crianças e adolescentes a riscos, como o excesso de estímulos, a desinformação, o cyberbullying, a dependência digital e a fragilidade emocional.
Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil, mais de 90% dos jovens entre 9 e 17 anos utilizam a internet regularmente, e uma parcela significativa relata já ter passado por situações desconfortáveis ou de risco online.
Proteção digital e o ECA
É nesse contexto que surge a discussão sobre o chamado ECA Digital — uma atualização necessária da proteção integral prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente virtual.
A grande questão que se coloca é: quem protege crianças e adolescentes nas redes?
No ambiente digital, a proteção é uma responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas, plataformas e o Estado. No entanto, a escola ocupa um lugar privilegiado nesse ecossistema, pois é o espaço onde se pode transformar o uso em reflexão, o acesso em consciência e a tecnologia em aprendizagem.
Mas proteger não significa proibir. Ao contrário, significa educar para o uso consciente. Isso envolve desenvolver o que chamamos de cidadania digital: a capacidade de navegar, interagir e produzir conteúdo de forma ética, crítica e responsável. A escola precisa incorporar esse debate de forma estruturada, não como um tema pontual, e sim como parte do currículo e da cultura escolar.
O desaparecimento do silêncio
Paralelamente a essa discussão, há outro fenômeno silencioso, porém profundamente impactante: estamos formando uma geração que cresce sem silêncio.
O silêncio, historicamente associado à concentração, à reflexão e ao autoconhecimento, vem sendo progressivamente substituído por estímulos constantes. Notificações, vídeos curtos, músicas, múltiplas telas — tudo acontece ao mesmo tempo.
Um estudo recente publicado na Revista Panamericana de Salud Pública, intitulado “Uso de telas por adolescentes femininas no Brasil: práticas e percepções”, mostra que o tempo de exposição já ultrapassa os limites considerados saudáveis.
Segundo a pesquisa, 76,4% das jovens brasileiras utilizam dispositivos por mais de quatro horas diárias, proporção que sobe para 80,5% em dias sem aula. Os dados indicam ainda que a maioria permanece entre quatro e nove horas por dia conectada, enquanto cerca de um em cada quatro adolescentes ultrapassa nove horas diárias.
Esse excesso de estímulos tem consequências diretas no desenvolvimento cognitivo e emocional. O cérebro em desenvolvimento adapta-se a esse padrão de hiperestimulação, dificultando processos que exigem atenção prolongada, leitura profunda e pensamento crítico.
A crise da atenção na escola
E é exatamente isso que se reflete na terceira questão: a crise da concentração na sala de aula.
Professores, em diferentes contextos, relatam a mesma dificuldade: manter a atenção dos estudantes tornou-se um dos maiores desafios pedagógicos da atualidade. Não é desinteresse puro e simples, mas uma mudança estrutural na forma como os jovens processam informação.
Pesquisas recentes apontam um aumento consistente nos índices de ansiedade entre crianças e adolescentes. No Brasil, atendimentos por transtornos de ansiedade no SUS (Sistema Único de Saúde) cresceram mais de 2.500% entre crianças de 10 a 14 anos e 3.300% entre jovens de 15 a 19 anos na última década, segundo dados do Ministério da Saúde.
Além disso, dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de um em cada sete adolescentes apresenta algum transtorno mental, evidenciando o avanço de quadros como ansiedade e dificuldades de autorregulação emocional.
A escola, que tradicionalmente operava sob um modelo de transmissão linear de conteúdo, precisa agora lidar com estudantes que vivem em um ambiente fragmentado, dinâmico e altamente estimulante.
Reinventar a aprendizagem
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é apenas “como recuperar a atenção dos estudantes”, e, sim, “como mudar a experiência de aprendizagem para dialogar com essa nova realidade”.
E essa resposta passa, necessariamente, por uma transformação na prática pedagógica.
Primeiro, é fundamental compreender que atenção não se impõe; ela se constrói. E está diretamente relacionada ao sentido. Estudantes se engajam quando percebem a relevância do que estão aprendendo. Isso exige que a escola conecte o currículo à vida, ao território e aos problemas do presente.
Metodologias ativas, aprendizagem baseada em projetos e resolução de problemas reais são caminhos potentes. Quando o estudante participa ativamente do processo, investiga, cria e colabora, a atenção deixa de ser uma obrigação e passa a ser consequência do engajamento.
O papel do silêncio e da pausa
Outro ponto essencial é a criação de espaços de pausa e reflexão. Em um mundo acelerado, a escola pode — e deve — ser um espaço que valoriza o tempo do pensamento. Práticas como leitura silenciosa, escrita reflexiva, momentos de escuta e até exercícios de respiração e de atenção plena contribuem para o desenvolvimento da concentração e do equilíbrio emocional.
Educação socioemocional e cidadania digital
A educação socioemocional também ganha centralidade. Desenvolver habilidades como autocontrole, foco, empatia e tomada de decisão é fundamental para que os estudantes consigam lidar com os desafios do mundo digital. Não se trata de um complemento, mas de uma dimensão estruturante da aprendizagem.
No campo da cidadania digital, a escola precisa ir além do discurso e promover experiências concretas. Isso inclui discutir o funcionamento das redes sociais, os algoritmos, a economia da atenção e os impactos do uso excessivo de tecnologia. Quando o estudante compreende como as plataformas operam, muitas vezes desenhadas para capturar sua atenção, passa a ter mais autonomia sobre seu próprio comportamento.
Escola, famílias e formação docente
Além disso, é fundamental envolver as famílias nesse processo. A relação com a tecnologia não se constrói apenas na escola. Orientar, dialogar e criar pactos de uso saudável são estratégias importantes para garantir coerência entre os diferentes ambientes de convivência do estudante.
Outro aspecto relevante é a formação de professores. Muitos educadores também estão imersos nesse contexto de hiperconexão e, muitas vezes, não tiveram oportunidade de refletir sobre esses temas em sua formação inicial, como comentei na coluna de fevereiro. Investir em formação continuada que aborde cultura digital, saúde mental e práticas pedagógicas inovadoras é essencial para que o professor se sinta preparado para atuar nesse cenário.
Mudança de paradigma
Por fim, é importante reconhecer que estamos diante de uma mudança de paradigma. Não se trata de ajustar práticas pontuais, mas de repensar o papel da escola em um mundo hiperconectado.
A escola do presente precisa ser, ao mesmo tempo, um espaço de proteção, de reflexão e de criação. Um lugar onde crianças e jovens aprendam não apenas conteúdos, mas também a viver, conviver e se posicionar em um mundo complexo e em constante transformação.
Proteger no digital, resgatar o silêncio e reconstruir a atenção não são desafios isolados, mas integram um mesmo processo: o de formar sujeitos críticos, conscientes e capazes de construir um futuro mais equilibrado.
Se conseguirmos transformar esses desafios em oportunidades pedagógicas, a escola não apenas acompanhará o seu tempo — ela será protagonista na construção de um novo modo de aprender e de viver.
Débora Garofalo
Professora, mestra em Educação, gestora em inovação, integrante da comissão municipal de Direitos Humanos, embaixadora do Instituto Ayrton Senna e da Varkey Foundation. Considerada uma das 10 melhores professoras do mundo pelo Global Teacher Prize.
Por: Porvir