Por Wanda Camargo*
“Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem na alegria, nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível”.
Herman Hesse
Alguns livros funcionam como diagnósticos de uma época e influenciam muito a juventude, e um deles certamente é O Lobo da Estepe, escrito em 1927 por Hermann Hesse, considerado um de seus melhores dos livros, e que até hoje é apreciado pelos adolescentes em todo mundo.
A obra conta a história de Harry Haller, que chama a si mesmo de “Lobo da Estepe”, e é descrito como alguém fora dos parâmetros burgueses de comportamento, atormentado e sem saber como conduzir sua própria vida.
Ele conhece Hermínia, Maria e o músico Pablo, que o conduzem para o “teatro mágico”, no qual experiências fantásticas perfazem uma espécie de trajetória de aprendizagem. Neste teatro, anunciado nos murais como sendo “só para os loucos”, algo desafiador para Harry e para jovens até hoje, tempo e realidade estão suspensos, e com a função de apresentar a Harry suas múltiplas personalidades, num caminho de tentar superar suas várias crises, em meio a diversões modernas, música, danças e conversas, as exigências da vida em uma cidade, a liberdade e aquilo que queremos para nós mesmos.
O personagem vive uma espécie de drama, dividido entre ser racional ou um lobo regido pelo instinto, que lutam numa mesma identidade, as mil faces da dificuldade de entender a complexidade interna daquilo que se sente e se deseja; uma referência aos componentes psicanalíticos de nossas personalidades. Numa “festa do inferno” sob a forma de um jogo, é indispensável que nos vejamos de fora e nos desarmemos.
Mas entrar na festa e julgá-la sem o mais profundo senso de humor, sem rir de si mesmo apesar de toda a dor, transforma a experiência em culpa. A cura possível talvez seja o riso.
É possível que a atração sentida pelos jovens em relação a esta história seja exatamente tentar entrar neste Teatro Mágico que é o mundo adulto e que não é exatamente simples. Entrar num mundo de guerras e micro guerras, de diversões desenfreadas, ciúmes e posses, violências e incompreensões, sem se sentir preparado, ou mais bem “aparelhado” para esta vivência, sem ter a mínima certeza do que o próximo ato dessa peça trará, pois o mundo é deslumbrante, mas também perigoso, o bom e o perverso podem sempre estar a postos para nos surpreender.
A infância, mais que um fato individual, é compartilhada por toda a espécie humana, e é vista com condescendência por todos, mas cada geração atravessa esta fase pela primeira vez, e é contraposta à figura do adulto sério, que tudo sabe – pelo menos na cabeça do jovem, até que ele mesmo perceba, com a idade, que não é bem assim.
As diferentes maneiras de viver a sexualidade, a necessidade de uma futura profissão e as responsabilidades em relação à família e até comunidade, criam no início os pequenos bandos, que reconhecem como leis apenas as regras que eles próprios definem, tentando escapar ao mundo real. Nos vários grupos, tentam definir seus valores, suas regras, sua própria moral, como se fosse possível reinaugurar a sociedade, deixá-la mais flexível (ou mais rígida em alguns pontos), conforme sua visão, sem saber que esta é limitada no tempo e no espaço, pelo desconhecimento do processo civilizacional e pelas restrições do ambiente familiar em que cresce.
Estes grupos são muito visíveis em todo ambiente escolar, do ciclo básico ao médio, reunidos pela maior ou menor adaptabilidade às normas prescritas, e variam desde os “nerds”, os “gozadores”, “questionadores”, até “os agressivos”. Toda uma gama de aglutinadores de comportamentos que qualquer professor identifica nas várias turmas que se sucedem no exercício profissional, dos mais fáceis ou difíceis de trabalhar, mas de forma geral um pouco rebeldes a serem formatados, pois cada um deles tende a considerar-se correto em suas atitudes, o que é positivo dentro de certos limites.
Com exceção dos agressivos, que podem eventualmente constituírem verdadeiras facções e cometerem bullying dentro ou fora da instituição escolar – basta lembrar os estudantes que recentemente praticaram ato monstruoso contra um animal indefeso, ou agressões contra os mais vulneráveis -, pois estes necessitam acompanhamento especializado, já que o desvio em relação à normalidade pode ser imenso.
No entanto, de forma geral os agrupamentos de crianças ou jovens fazem parte da normalidade da fase, e devem receber atenção especial para acolherem e serem acolhidos por professores e outros alunos. O Teatro Mágico se revela para cada geração.
*Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.
Por: Revista Contemporartes