Quando o aluno descobre seu próprio poder de aprender, a escola se transforma em um lugar de sentido, criatividade e possibilidades.
por Redação
Quando participa das decisões sobre o que aprende, como aprende e por que aprende, o estudante encontra mais sentido na escola. Esse é argumento central do protagonismo estudantil, tema presente em debates educacionais no Brasil e no mundo. A proposta busca formar estudantes autônomos, críticos e preparados para lidar com os desafios do mundo contemporâneo, sem deslocar o papel do professor na mediação do ensino.
À medida que essa abordagem se consolida na escola, seus efeitos se desdobram em múltiplas dimensões. O ensino se transforma porque o professor passa a adotar abordagens pedagógicas mais significativas e conectadas à realidade dos estudantes. Ao mesmo tempo, os alunos assumem um papel mais ativo, com mais espaço para se expressar, serem ouvidos, participando da construção de seu conhecimento ao longo da trajetória escolar.
Essa dinâmica contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes, ampliando seu repertório e fortalecendo sua capacidade de fazer escolhas mais conscientes ao longo da vida. Isso vale para decisões como ingressar em um curso universitário, seguir uma profissão, assumir um trabalho ou trilhar caminhos que façam sentido para seus projetos e desejos.
Colocar o estudante no centro da aprendizagem, portanto, deixou de ser apenas uma formulação pedagógica. A ideia também aparece em relatórios e pesquisas que discutem quais conhecimentos, habilidades, atitudes e valores a escola precisa desenvolver.
Aspirações para o futuro
Segundo o relatório Future of Education and Skills 2030/2040 (Futuro da Educação e das Competências 2030/2040), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o protagonismo estudantil tem potencial de transformar a escola e fomentar a aprendizagem. O documento o apresenta como um movimento importante para preparar os estudantes para empregos que ainda nem foram criados, desafios sociais ainda desconhecidos e tecnologias que ainda não foram inventadas.
Além disso, a pesquisa recomenda que as redes de ensino apoiem os alunos na identificação e na realização de suas aspirações para o futuro, por meio de seus projetos de vida. Ou seja, a escola já não pode ser mais somente as competências técnicas. Ela precisa garantir que crianças e adolescentes desenvolvam conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários para diferentes momentos da vida.
Aspectos ligados à felicidade e ao bem-estar dos estudantes, como motivação e pertencimento, já são medidos pelo PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), por meio de questionários aplicados aos estudantes. A avaliação, embora seja mais conhecida por mensurar a proficiência em leitura, matemática e ciências entre os países da OCDE, também observa fatores associados à experiência escolar.
Mais interesse, maior engajamento
Quando participa ativamente do que e de como aprende, o aluno tende a se sentir mais motivado e engajado. Esse vínculo também pode favorecer a permanência na escola, em um país no qual a evasão ainda é um problema a ser enfrentado. Afinal, aprender sobre algo que faz sentido e pode ser usado na prática costuma ser mais estimulante.
É claro que há conteúdos obrigatórios definidos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que orienta o que deve ser ensinado nas escolas. O debate, porém, não está apenas no que se ensina, mas em como se ensina. Um exemplo aparece nas cidades de Jaguariúna (SP) e Mata de São João (BA), que mudaram a aprendizagem de matemática com a aprendizagem criativa (assista ao vídeo).
Quem nunca se perguntou, durante a própria trajetória escolar: “O que eu vou fazer com isso?” Ou: “Para que tenho de aprender esse conteúdo se não vou usá-lo na minha vida?”
A própria BNCC aponta a necessidade de uma formação que vá além da transmissão de conteúdos e promova o desenvolvimento integral dos estudantes. Nesse sentido, o relatório da OCDE reforça que o estudante precisa ser considerado “como um todo”, com oportunidades que ultrapassem a sala de aula e incluam experiências diversas.
Entre elas, destacam-se as atividades mais lúdicas, desafiadoras e significativas. Muitas vezes, elas são negligenciadas, embora influenciem diretamente no desenvolvimento dos estudantes.
Garantir escolas públicas mais equitativas e inclusivas, portanto, é um passo importante para que todos tenham condições de descobrir e alcançar seus sonhos.
O poder da aprendizagem criativa
É nessa direção que atua o Instituto Escolas Criativas, ao apoiar 27 redes públicas no Brasil na transformação das escolas em espaços mais significativos, nos quais os estudantes se sintam pertencentes, valorizados e engajados no próprio processo de aprendizagem.
Ao incentivar práticas inovadoras, mão na massa em sala de aula, e novas formas de trabalhar o currículo, o instituto contribui para que a formação integral deixe de ser apenas uma ideia e passe a se concretizar no cotidiano escolar. Verônica Gomes, cofundadora e diretora de implementação do IEC, afirma que a aprendizagem criativa cria oportunidades de colaboração, troca e compartilhamento que apoiam esse desenvolvimento integral.
“É como se ela conectasse todas as pontas do ensino e da aprendizagem com desafios que instigam a construção de recursos que associam o estudante com seu território e sua realidade. Ao trazer as experiências para o concreto, a aprendizagem fica mais evidente”, afirma.
Nessas experiências, a aprendizagem deixa de ser apenas transmissão de conteúdo. Ela passa a ser construída de forma coletiva, envolvendo participação, criação e colaboração, em um percurso no qual o erro é valorizado como parte do processo.
Ao experimentar diferentes formas de aprender, os estudantes desenvolvem não só conhecimentos técnicos, mas também autonomia, autoconfiança, criatividade, pensamento crítico e capacidade de se expressar, dimensões diretamente relacionadas ao protagonismo estudantil.
Melhoria do clima escolar
Engana-se quem acredita que esse tipo de inovação faz brilhar os olhos somente dos estudantes. Professores que já aderiram a essa abordagem pedagógica também relatam mais entusiasmo para lecionar e construir conhecimento a partir dos diferentes saberes dos territórios.
A aprendizagem criativa também contribui para a melhoria do clima escolar. A avaliação de impacto realizada pelo Instituto Escolas Criativas apontou que, nas escolas parceiras do programa, os professores percebem estudantes mais respeitosos com os colegas, mais atentos aos acordos estabelecidos e mais dispostos a criar uma atmosfera favorável ao aprendizado.
Quando a escola se torna um espaço em que faz sentido estar, aprender e participar, o engajamento cresce e o vínculo entre estudantes, professores e comunidade se fortalece.
Por: Porvir