*Jucemara da Costa Carvalho
Sabe-se o quanto a prática pedagógica é desafiadora no cotidiano escolar. Afinal, acolher a singularidade e os diferentes ritmos de aprendizagem é a essência de toda boa educação. Quando se olha para a Educação Especial Inclusiva, esse compromisso com a individualidade intensifica-se, exigindo estratégias de acessibilidade e recursos ainda mais intencionais. Nos últimos anos, presenciou-se um aumento expressivo no número de estudantes público-alvo da Educação Especial (alunos com deficiência, Transtorno do Espectro do Autismo e Altas Habilidades/Superdotação) matriculados no ensino regular. Se o acesso já está garantido por lei, nosso compromisso agora é garantir a permanência com aprendizagem efetiva.
A melhor maneira de trazer segurança a esse processo, para a prática docente e as famílias, é compreender, com profundidade, quem é nosso aluno e do que ele precisa. Com base em minha vivência à frente da coordenação inclusiva desde 2018 e no acompanhamento da implantação do Plano de Desenvolvimento Individualizado (PDI) desde 2020, percebo que a melhor metodologia de trabalho é a articulação entre o Estudo de Caso e o PDI.
O Estudo de Caso — O Olhar Investigativo
O Decreto n.º 12.686/2025 (com as alterações do Decreto n.º 12.773/2025) veio para reafirmar o que, na prática, já vinha sendo desenvolvido com base no compromisso de que o conhecimento é o melhor caminho. No Estudo de Caso, o ponto de partida é a realização de uma avaliação diagnóstica para identificar a linha de base do estudante, ou seja, em que ponto de seu desenvolvimento pedagógico ele se encontra.
Para tanto, efetuam-se escutas e investigações multifacetadas, utilizando diferentes instrumentos cotidianos, a saber:
● sondagens e produções de texto;
● atividades pedagógicas diárias e avaliações formativas;
● observações atentas da rotina escolar;
● informações valiosas compartilhadas pela família em reuniões;
● laudos, pareceres e avaliações de especialistas externos, se houver.
Essa investigação ganha uma dimensão ainda mais consistente graças à estrutura do Grupo Educacional Bom Jesus. As unidades escolares contam com a retaguarda de um Centro de Estudos e Pesquisas – estruturado com um setor dedicado exclusivamente à Educação Inclusiva – e com um Departamento de Saúde Escolar composto por fonoaudiólogos, enfermeiros e pediatras. De semelhante modo, no cotidiano escolar de cada unidade, os psicólogos locais atuam diretamente em conjunto com as equipes responsáveis pelo Estudo de Caso.
Essa atuação interdisciplinar permite olhar para o estudante em sua totalidade. De acordo com a legislação, o Estudo de Caso constitui uma metodologia de produção, sistematização e registro de informações e estratégias relativas ao Atendimento Educacional Especializado (AEE). Trata-se de uma etapa inicial indispensável para identificar as potencialidades e demandas de apoio, bem como para analisar as barreiras e o contexto escolar para definir recursos de acessibilidade.
O PDI — A Ação Intencional
O PDI é resultado do Estudo de Caso que fundamentará a elaboração de nossos documentos de acompanhamento. Cabe esclarecer a nomenclatura: o decreto conceitua o PAEE (Plano de Atendimento Educacional Especializado) e autoriza o uso de instrumentos análogos, como o PEI ou o PDI (Plano de Desenvolvimento Individualizado), termo adotado em nossa instituição. Trata-se de instrumento semelhante com a mesma finalidade legal: organizar e intencionar o percurso formativo do estudante.
De acordo com a legislação, esse planejamento deve orientar o trabalho na sala comum, as ações do AEE, as atividades colaborativas na escola e a articulação intersetorial. Para simplificar a rotina pedagógica e garantir essa sinergia, nas unidades, estruturou-se o PDI como o documento norteador (macro).
No PDI, transforma-se o mapeamento das potencialidades e necessidades em ação pedagógica intencional. Parafraseando o Gato de Cheshire, da obra Alice no País das Maravilhas: “Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve”. Na Educação Inclusiva, não é possível caminhar à deriva. É preciso traçar metas claras e alinhadas às reais necessidades do estudante.
Esse documento deve ser construído colaborativamente com o professor da sala regular, pois é no cotidiano da sala de aula que as flexibilizações e as mediações acontecem. As decisões sobre a avaliação também nascem nesse processo. Em nossa realidade, a maioria dos estudantes público-alvo da Educação Especial realiza avaliações adaptadas e recebe notas no boletim. Contudo, há também estudantes que, por suas especificidades, são acompanhados por pareceres descritivos ou relatórios.
Independentemente da forma de registro (por nota ou parecer), os processos, as oportunidades e os recursos viabilizam a aprendizagem e a autonomia. Por essa razão, o PDI não é uma ficha estática: é um documento vivo e flexível, que deve ser revisitado e ajustado sempre que necessário.
A Articulação e a Prática na Rotina
O Estudo de Caso sem o PDI fica sujeito a converter-se em apenas um registro formal sem desdobramento pedagógico. Por outro lado, um PDI elaborado sem um Estudo de Caso prévio torna-se um documento genérico, sem conexão com as necessidades do estudante. Por isso, a articulação entre ambos é o eixo central da inclusão.
Cabe ressaltar a temporalidade desse processo: o Estudo de Caso deve ocorrer no momento do ingresso do aluno na escola – em qualquer época do ano – e ser renovado a cada início de ano letivo para aqueles que já apresentam histórico na unidade, com a consequente reavaliação do PDI.
É possível que surja a dúvida: “Mas em que momento faremos tudo isso? É tão complicado reunir toda a equipe para planejar as flexibilizações!” De fato, trata-se de um desafio real. Dessa forma, esse movimento precisa ser articulado em parceria constante com a gestão escolar e a assessoria pedagógica, de modo que se viabilizem tempos e espaços para tais encontros.
Diante desse contexto, com 39 unidades escolares, desenvolveu-se uma estratégia bastante eficaz para articular as equipes. Enquanto os encontros entre professores, equipe pedagógica e psicólogos locais ocorrem prioritariamente de forma presencial na unidade, a integração com a rede de apoio central (o CEP e o DSE, sediados em Curitiba) ganha a agilidade proporcionada pela tecnologia.
Realizam-se reuniões online (via Google Meet), frequentemente gravadas, que permitem aos professores que não puderam acompanhar em tempo real assistir às gravações e contribuir conforme sua disponibilidade. A tecnologia, assim, consolida-se como ponte de comunicação entre as unidades e a rede de apoio, tornando-se uma importante aliada da gestão do tempo e do trabalho colaborativo.
Considerações Finais
Assegurar o acesso do estudante público-alvo da Educação Especial foi o primeiro grande passo da legislação brasileira. No entanto, garantir sua permanência com aprendizagem real e autonomia é nossa missão diária. Reconhecemos que essa caminhada não é isenta de percalços: em nossa rede, seguimos constantemente aprimorando a gestão do tempo, a cultura da formação continuada e o entendimento do PDI como uma ferramenta viva, e não como mera obrigação burocrática.
A Educação Inclusiva não é um compromisso exclusivo da escola. Trata-se de pauta transversal que envolve toda a sociedade e dialoga diretamente com a saúde pública e com a garantia dos direitos fundamentais.
Porém, nenhuma metodologia se sustenta sem o investimento permanente no principal capital humano da escola: os educadores. Por meio da formação continuada, transformam-se as incertezas metodológicas em segurança e intencionalidade pedagógica. Capacitar equipes, promover trocas entre a sala regular e a rede de apoio e debater casos reais viabilizam a evolução de uma inclusão meramente embasada em intenções para uma prática inclusiva efetiva.
Quando aliamos conhecimento, rede de apoio multiprofissional estruturada, instrumentos como o PDI e momentos constantes de formação, construímos uma escola na qual cada estudante encontra espaço para desenvolver todo seu potencial.
Jucemara da Costa Carvalho é pedagoga e especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Inclusiva e Gestão Escolar. Pesquisadora nas áreas de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Atua como Coordenadora de Educação Inclusiva na Educação Básica do Grupo Educacional Bom Jesus. É criadora do PEA (Programa de Ensino de Alfabetização), material estruturado e baseado em evidências científicas, direcionado ao desenvolvimento de crianças com autismo e deficiência intelectual.
Por: Grupo Bom Jesus