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Brincadeiras indígenas conectam cultura, natureza e aprendizagem

Conteúdos audiovisuais e materiais de referência mostram como o brincar indígena pode enriquecer o planejamento pedagógico

por Ana Luísa D’Maschio / Nicole Nicácio

Brincar é coisa séria. Presente em todas as infâncias, o ato de brincar articula o desenvolvimento humano e a cultura. Em diferentes sociedades, atividades como cantar, brincar de roda ou jogar peteca representam formas de interação lúdica que atravessam gerações.

Entre as comunidades indígenas brasileiras, como o povo Yudja, da aldeia Tuba Tuba, no Parque Indígena do Xingu (MT), o brincar vai além da diversão: está diretamente relacionado à transmissão de saberes. Pela fala e pelo convívio, as crianças aprendem a ler o mundo e a fortalecer a vida coletiva.

O documentário Waapa (2017), dirigido por David Reeks, Paula Mendonça e Renata Meirelles, evidencia como, entre os Yudja, as brincadeiras articulam aprendizado, cultura e convivência, demonstrando que o brincar é, essencialmente, um espaço de socialização e construção de conhecimentos.

O filme está disponível gratuitamente no YouTube da produtora de cinema e TV Maria Farinha Filmes.

Para aplicar em sala de aula
Inspirado pelo documentário, o Porvir fez uma seleção de 8 brincadeiras, retiradas de materiais de referência e bons apoios pedagógicos: o Manual Bilíngue de Jogos e Brincadeiras Indígenas, de Patricia Rossi dos Reis, da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), o e-book Do museu à escola: tecendo diálogos – brincadeiras indígenas, da equipe do MCI (Museu das Culturas Indígenas), e o site Parabolé. O Museu também disponibiliza, gratuitamente, uma série de materiais de apoio e formações para educadores.

As orientações a seguir, baseadas nesses materiais, auxiliam o professor a levar os jogos indígenas de maneira contextualizada:

Evite o singular: não utilize termos genéricos como “o indígena”. O Censo Demográfico 2022 registrou 391 etnias, povos ou grupos indígenas residentes no Brasil, e 295 línguas indígenas. Sempre que possível, pesquise sobre a etnia que também pratica a brincadeira.

Pesquise: antes de iniciar a atividade, apresente o povo de origem e sua localização geográfica. Isso ajuda a combater estereótipos e a situar o conhecimento no território. Neste link, você encontra uma série de instituições, bibliotecas e estudos ligados à educação indígena.

Vá além da técnica: o foco não deve ser apenas aprender as regras do jogo. É fundamental discutir o valor da coletividade, a cooperação (em vez da competição) e a relação intrínseca com os elementos da natureza.
Promova conexões: utilize essas práticas como ponto de partida para que os alunos investiguem as referências culturais dos povos originários de seus próprios estados. O Laboratório de Ensino e Material Didático da USP (Universidade de São Paulo) reúne uma série de livros indígenas didáticos e gratuitos para download.

Confira, a seguir, 7 brincadeiras indígenas e suas curiosidades:

Barbante | Cama de gato
A brincadeira conhecida como “cama de gato” é comum a diversos povos da América Latina e de outras partes do mundo e revela a riqueza das tradições indígenas.

Conhecida por diferentes nomes, ela assume significados próprios em cada contexto. Na língua guarani mbya, é chamada de nhevanga jaxy tata; entre os guarani ñandeva, de jacy tata, expressão que pode ser traduzida como “jogo da estrela”; já na língua do povo Noke Kuin (também conhecido como Katukina Pano), recebe o nome de kãchi.

Esses povos estão distribuídos em diferentes regiões do Brasil. Os guarani mbya e ñandeva vivem principalmente nas regiões Sul e Sudeste, em estados como Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Já os Noke Kuin habitam a região Norte, especialmente o estado do Acre, na Amazônia brasileira.

A brincadeira é realizada, em geral, por duas pessoas. Um dos participantes forma uma figura com um barbante entre os dedos, enquanto o outro retira o fio e constrói uma nova forma, sem desfazer completamente a anterior. O processo segue em sequência, exigindo atenção, memória, coordenação motora e habilidade manual.

O kãchi, praticado pelo povo Noke Kuin, já foi tema de uma exposição no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná.

Jogo da onça
Conhecido como adugo pelo povo Boe (Bororo), na língua boe wadaro, o jogo da onça reúne valores ligados à convivência, à observação da natureza e às relações entre os seres. A prática também aparece, com variações, entre outros povos indígenas, como os Guarani e os Yine (Manchineri).

No Brasil, esses povos estão distribuídos por diferentes regiões. Os Boe (Bororo) vivem principalmente no Centro-Oeste, no estado de Mato Grosso. Já os Guarani estão presentes no Sul e Sudeste, enquanto os Yine habitam a região Norte, especialmente o Acre.

A dinâmica do jogo envolve dois participantes e estratégias distintas. De um lado, um jogador controla a onça, representada por uma peça; do outro, o adversário conduz 14 cachorros. O objetivo da onça é capturar os cachorros ao saltar sobre eles, de forma semelhante ao jogo de damas. Já os cachorros precisam atuar de forma coletiva para cercar a onça e bloquear seus movimentos.

O jogo se destaca pela simplicidade: pode ser feito com materiais acessíveis, como papel, lápis, tampinhas ou pedras — ou até mesmo desenhado no chão, com os próprios participantes representando as peças.

Curiosidade: O jogo da onça faz parte da exposição “MYMBA’I, Pedindo licença aos espíritos, dialogando com a Mata Atlântica”, do Museu das Culturas Indígenas. Clique aqui e saiba como visitar.

Cabo de força
Entre os Tikmu’ún (conhecidos como Maxakali), que vivem principalmente no estado de Minas Gerais, a brincadeira recebe o nome de yãy tat ax putix. Assim como em outras culturas, a dinâmica envolve duas equipes que seguram as extremidades de uma corda e tentam puxar o grupo adversário para o seu lado.

Para organizar o jogo, marca-se o limite de cada campo no chão, que pode ser feito com um risco na terra, giz ou até um pedaço de tijolo. Vence a equipe que conseguir arrastar a outra para o seu território.

Além de trabalhar força e resistência, a brincadeira promove cooperação, equilíbrio e participação coletiva, pois pode envolver pessoas de diferentes idades e habilidades.

Entre o povo Huni Kuin, no Acre, crianças e adultos participam juntos dessas atividades.

Jogo de cabeça
O jogo ãjãí, nome dado na língua do povo Mỹky a uma brincadeira tradicional, é praticado pelos povos Mỹky e Manoki, conhecidos como Irantxe, que vivem no estado do Mato Grosso.

A principal característica do jogo é o uso exclusivo da cabeça para tocar a bola. Feita com a seiva de uma árvore, semelhante a uma cola branca, a bola é aquecida, moldada em forma de disco e depois inflada, ganhando leveza e elasticidade.

A partida acontece em um campo dividido ao meio, com dois times posicionados em lados opostos. O objetivo é fazer a bola passar três vezes para o campo adversário sem que ela seja defendida. Não há número fixo de jogadores nem tempo determinado de duração, e a cada ponto marcado o time recebe um prêmio.

Mais do que competição, o ãjãí envolve saberes tradicionais e o trabalho coletivo da comunidade, desde a produção da bola até a organização do jogo.

A prática foi registrada no filme “Ãjãi: o jogo de cabeça dos Myky e Manoki” (2019), do coletivo de cinema Ijã Mytyli, que também mostra aspectos do cotidiano desses povos, como a caça, o preparo de alimentos e o trabalho das mulheres.

Flaici
O Flaici é uma brincadeira de mãos praticada por crianças do povo Kaingang, nas terras indígenas do Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, no Paraná.

Vídeo disponível no Canal Parbolé no YouTube
Inspirado nos tradicionais jogos de mãos, o Flaici é uma adaptação do “Tricilomelo”, muito popular entre as crianças. A brincadeira consiste em realizar gestos rítmicos com as mãos, geralmente acompanhados por músicas ou cantos, criando conexão e interação entre os participantes.

Mais do que diversão, o jogo fortalece os laços de amizade e a integração social dentro da comunidade. Ao brincar, as crianças também se aproximam de sua cultura, valorizando a tradição e a identidade Kaingang.

Brincadeira do sapo (Taroké)
A brincadeira do sapo é uma atividade coletiva que estimula a imaginação e a interação entre os participantes.

Tradicional entre as crianças do povo Tukano, da região do Alto Rio Negro, na Amazônia, o jogo é conhecido como Taroké e faz parte do conjunto de práticas lúdicas transmitidas entre gerações.

Sem a necessidade de materiais, a brincadeira acontece de forma livre, com pelo menos dois participantes. Um deles assume o papel de comandante e conduz o jogo por meio de comandos que todos devem imitar.

Os jogadores pulam como sapos e seguem instruções como pular com uma perna só, tampar um dos olhos, cair ou rolar no chão. A cada comando, novos desafios surgem, exigindo atenção e agilidade do grupo.

Cata-vento de folha
O cata-vento de folha é uma brincadeira tradicional também comum entre os povos indígenas da região do Rio Negro, no Amazonas.

Feito com materiais simples, como folhas grandes de buriti e firmes e pequenos gravetos, o brinquedo é construído pelas próprias crianças, que exploram o ambiente ao seu redor para encontrar os elementos necessários.

A dinâmica consiste em fazer o cata-vento girar com a força do vento ou com o movimento das mãos. Para isso, a folha é cortada e fixada em um ponto central com um graveto, formando um objeto leve e funcional.

Por: Porvir

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