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Quais brincadeiras propor para cada campo de experiências na Educação Infantil?

Da exploração do corpo às interações com espelhos, veja sugestões de brincadeiras com intencionalidade pedagógica

Por Nairim Bernardo

“O brincar é inerente à criança. Tudo o que ela faz tem relação com o brincar, com o lúdico. Em sua vida cotidiana, a criança interage com outras crianças, com adultos, com espaços e objetos e o brincar é o mediador da sua relação com o mundo”, diz Elaine Suane Florêncio dos Santos, professora adjunta no curso de Pedagogia da Universidade de Pernambuco (UPE).

O brincar é tão importante para a infância, que foi estabelecido o dia 28 de maio como o Dia do Brincar, reafirmando esse direito fundamental de todas as crianças. A criação da data partiu de uma iniciativa de Freda Kim, então presidente da International Toy Library Association (ITLA). O dia foi escolhido por coincidir com o aniversário da associação. Presente no calendário do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a data é comemorada no Brasil e em mais de 40 países ao redor do mundo.

BNCC e o brincar
A Base Nacional Comum Curricular estabelece esse como um dos seis Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento na Educação Infantil. Segundo o documento, as crianças precisam “brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, conhecimentos, imaginação, criatividade, experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais”.

O texto também cita o Artigo 4.º das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil, que definem a criança como “sujeito histórico e de direitos, que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura”.

“Por muito tempo, a educação carregou o estigma de memorização, de disciplinar o corpo, e o brincar foi invisibilizado, aparecendo nas práticas escolares como algo de segunda importância”, conta Elaine.

“A BNCC parte das Diretrizes Curriculares e é importante que os documentos reforcem essas ideias pois em algumas escolas e famílias ainda vivemos nessa luta de desmistificar o que se entende por educação e de mostrar que o brincar não é tempo perdido, muito pelo contrário”, diz.

Nil Ebani, especialista em Educação Infantil e formadora de professores, enfatiza que o direito da criança pressupõe o dever dos adultos. “Brincar é direito e responsabilidade pedagógica da escola. As gerações que estão chegando até ela estão cada vez mais impossibilitadas do brincar: casas com espaços menores, cerceamento das ruas devido à insegurança, famílias com menos filhos e uso excessivo de telas e dispositivos eletrônicos. Nesse sentido, a escola é um lugar privilegiado para que as interações e brincadeiras aconteçam”, defende.

O brincar e os campos de experiências
A BNCC estabelece cinco campos de experiências para a Educação Infantil. Esse arranjo curricular considera as situações e vivências do cotidiano das crianças e podem ser experienciadas pelas brincadeiras.

É importante considerar que uma brincadeira relaciona diferentes campos de experiências, que na vivência infantil nunca estão isolados, mas cabe à professora, enquanto propositora, mediadora e observadora, escolher no que deseja focar.

“Quando planejamos, precisamos destacar um ou outro campo. A professora tem que ter objetivos, intencionalidade pedagógica”, diz Nil Ebani.

Veja abaixo algumas sugestões de brincadeiras com foco em cada campo:

O eu, o outro e o nós
O foco desse campo é o desenvolvimento da identidade pessoal, das relações sociais e da convivência. Aponta a necessidade de que as crianças descubram as diferenças para aprenderem a lidar com elas de forma respeitosa.

Proposta > Brincadeiras com fotos e com espelhos
É importante que as crianças percebam a identidade da turma, quem são as famílias de sua sala, quais são suas características comuns e distintas.

Para bebês e crianças, as professoras podem organizar fotografias das famílias em diferentes espaços da sala, mural com fotos da turma em diferentes momentos da rotina e espelhos.

Brincadeiras com o próprio corpo e com os colegas em frente ao espelho podem fazer com que reflitam sobre as diferenças e semelhanças entre si e com familiares das fotos (altura, cor dos olhos, cor e textura do cabelo, cor da pele).

Como conduzir:
Antes que as crianças cheguem, organize o espaço e escolha onde colocar as fotos e os espelhos. Durante a brincadeira, inclua músicas e proponha momentos de danças, interações, imitação e observação do próprio corpo e do outro.

Corpo, gestos e movimentos
Desenvolvimento da expressão, da exploração e da aprendizagem por meio do corpo. Busca possibilitar que as crianças conheçam suas potencialidades e limites, se comuniquem, explorem movimentos em diferentes espaços, desenvolvam coordenação motora, consciência corporal e autonomia.

Proposta > Brincadeiras tradicionais
“Brincadeiras regionais são interessantes. Muitas relacionam o dançar, o cantar, o batucar e a interação. Essas brincadeiras trazem muita expressividade corporal, como bater palma, correr, pular. Além disso, apresentam o repertório cultural do território”, diz Nil Ebani.

Alguns exemplos são: corda pequena (para pular sozinho), corda grande, peteca, peões, brincadeiras de roda.

Como conduzir:
Faça uma pesquisa sobre as brincadeiras e brinquedos (por mais que você já conheça, algumas têm diferentes modos de serem realizadas). Organize o espaço e os materiais. Pergunte se as crianças já conhecem aquela brincadeira e aquela cantiga e peça que ensinem às demais. Observe como brincam e se todas estão participando. Compartilhe um modo de brincar também. É importante repetir a brincadeira em diferentes dias, para que as crianças tenham a oportunidade de experimentá-la diversas vezes e para que se apropriem do repertório de músicas e movimentos.

Traços, sons, cores e formas
O campo busca ampliar o contato com diferentes linguagens e manifestações culturais para que as crianças experimentem, expressem ideias e emoções, desenvolvam senso estético e construam repertórios culturais próprios.

Proposta > Brincar ao ar livre, com o corpo todo e com diferentes materiais
“É interessante propor brincadeiras com elementos do campo das artes: exploração das densidades, plasticidades, cores e texturas.

A criança precisa ter uma relação com os materiais a partir do corpo: entrar dentro de bacias de melecas, criar e utilizar tintas naturais, argila, massinha. Primeiro, a mão é o pincel que faz o movimento no papel, na parede, no chão, e depois são adicionados instrumentos de desenho e pintura como pincéis, rolos, lápis e canetas”, sugere Nil Ebani.

Como conduzir:
Sempre que possível, organize os materiais de trabalho em espaços abertos ou que possam ser utilizados sem preocupação com marcas ou resíduos.

As crianças também precisam estar com roupas que possam receber água, tinta, melecas ou outros materiais. Explique a atividade e dê instruções: pode passar o material no corpo? Devemos usar só as mãos? Pode pintar as paredes? Quais superfícies podem sofrer intervenções das crianças?

Importante: observe como a turma interage com os materiais e, caso alguém tenha sensibilidade a algum deles, ofereça outra opção.

Intervenção docente: quando fazer e quando evitar?
Segundo a professora Elaine Suane Florêncio dos Santos, o foco das professoras na Educação Infantil está em oportunizar possibilidades para as crianças.

O que fazer:
Organizar os espaços, os materiais, o tempo e convidar a turma para experiências;
Observar como as crianças estão interagindo com a proposta e como se relacionam entre si;
Mediar situações de conflito (que são normais e vão acontecer);
Fazer registros por escrito, foto e vídeo;
Participar da brincadeira quando convidada pelas crianças;

O que evitar:
“A professora não pode querer centralizar e conduzir totalmente a brincadeira das crianças. Muitas vezes, os adultos corrigem muito o brincar infantil, se antecipam às suas descobertas. Na ânsia por ensinar a brincar, não tomam tempo para observar o que elas estão fazendo e quais hipóteses sobre o mundo estão desenvolvendo”, diz Elaine.

Por: Nova Escola

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