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O que muda para a escola com a nova avaliação de IA do PISA 2029

Atualização da prova internacional aproxima educação midiática e inteligência artificial e mostra que as escolas precisam ir além do uso de tecnologia, formando estudantes capazes de compreendê-la criticamente

por Ana Luísa D’Maschio

A educação midiática tornou-se indissociável da inteligência artificial. Em um mundo no qual algoritmos organizam o que vemos, recomendam conteúdos, personalizam experiências e também participam da produção de textos, imagens e vídeos, formar estudantes para lidar criticamente com a informação exige olhar, ao mesmo tempo, para a mídia e para a IA.

Essa foi uma das ideias centrais discutidas na quarta edição do Encontro Internacional de Educação Midiática, realizado pelo EducaMídia e pelo Instituto Palavra Aberta, no dia 21 de maio, em São Paulo (SP). O Porvir é um dos apoiadores do evento.

O tema ganha força porque o PISA (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) incluirá em 2029 a abordagem MAIL, sigla em inglês para letramento em mídia e inteligência artificial.

Em fase de desenvolvimento, a avaliação internacional, coordenada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), analisará se os jovens estudantes aprenderam a agir de forma crítica e responsável em um ambiente mediado por plataformas digitais e sistemas de IA.

“A educação midiática sem a educação de IA torna-se desatualizada. A educação de IA sem educação midiática permanece técnica demais. Se focarmos só em um dos aspectos, perdemos metade da história”, afirmou Luís Francisco Vargas Madriz, especialista da OCDE envolvido no desenvolvimento da nova matriz.

“A nossa esperança é que, até 2029, essa avaliação nos ajude a entender se os alunos tiveram oportunidade de aprender, de ter engajamento proativo e pensamento crítico. Vivemos em um contexto em que a produção, a participação e as redes sociais estão cada vez mais mediadas por plataformas de mídia e sistemas de IA”, complementou.

Não se trata de programação
A entrada da inteligência artificial no PISA não exige que os estudantes dominem linguagens de programação ou ferramentas específicas. O MAIL avaliará se eles conseguem identificar a credibilidade de conteúdos digitais. A matriz está organizada em quatro dimensões principais: acessar e utilizar informações, analisar e avaliar conteúdos, criar com responsabilidade e participar ou colaborar em ambientes digitais. Todas elas são atravessadas por um eixo central: agir e refletir de forma ética e responsável.

Na prática, isso significa que a avaliação vai simular situações cotidianas: decidir se é seguro compartilhar a foto de uma carteira de motorista, avaliar se devem aceitar todos os termos de privacidade (cookies) de um site ou identificar publicidade disfarçada de recomendação em assistentes virtuais de conversação, por exemplo.

“Analisar e avaliar é mais a proteína da refeição. É verificar se os alunos têm a capacidade de pensar de forma crítica sobre propósito, viés, relevância e credibilidade dos conteúdos”, afirmou Luís.

Acesse a Nota Técnica do EducaMídia com os fundamentos conceituais da nova avaliação e sua convergência com as diretrizes brasileiras de educação digital e midiática.

Embora a avaliação internacional esteja prevista para 2029, o tema já mobiliza as redes de ensino no Brasil. Duas ferramentas nacionais foram lançadas para apoiar gestores e educadores na integração da educação digital aos currículos.

As iniciativas foram desenvolvidas pela SECOM/PR (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o Governo do Reino Unido e oPorvir, com colaboração do MEC, Ministério da Educação, a Coleção Brasileira de Educação Digital e Midiática reúne mais de 90 cursos, guias, recursos pedagógicos e webinários voltados a profissionais da educação. Paralelamente, o Mapa Brasileiro da Educação Midiática organiza e dá visibilidade a mais de 200 iniciativas desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil, reunindo experiências para inspirar escolas e redes.

Professores já usam IA, mas precisam de apoio
Um dos pontos mais sensíveis desse debate é a formação de professores. Dados citados no evento indicam que 54% dos docentes brasileiros já usam inteligência artificial. No entanto, ainda não se sabe se esse uso acontece de forma crítica, responsável e conectada a objetivos pedagógicos.

A percepção dos estudantes também revela uma lacuna. Segundo o representante da OCDE 74% dos alunos acreditam que a IA terá papel significativo em suas vidas. Ao mesmo tempo, apenas 46% dizem que as escolas os preparam adequadamente para a IA, e só 44% veem seus professores como bem preparados para trabalhar com aplicações de inteligência artificial.

Para Luís, esses índices provam que a presença da tecnologia nas salas de aula é insuficiente. É preciso compreender quando faz sentido usar IA, como avaliar suas respostas, quais cuidados devem ser tomados e por que a supervisão humana continua indispensável.

“A intenção é que comecemos a questionar se os alunos devem usar a IA para alguma tarefa específica, se os alunos devem confiar nos resultados que a IA gera. É muito importante interagir com essa ferramenta de uma forma ética e responsável.”

Ao mesmo tempo, o especialista reconhece que essa agenda não pode ser apresentada como mais uma sobrecarga para profissionais que já enfrentam muitas demandas.

“A nossa intenção é deixar claro que é possível. Você pode fazer do letramento com IA uma parte do seu processo. Porém, a gente precisa ter cuidado porque sabemos que os professores já têm muitas tarefas para fazer. Então a gente não quer comunicar que eles precisam fazer algo extra.”

IA deve ser transversal
Houve consenso no encontro de que a inteligência artificial não deve ser tratada apenas como tema de tecnologia ou informática. Ela pode aparecer em diferentes áreas do conhecimento, de forma transversal.

“Não estamos tentando aumentar o currículo, mas oferecer algumas sugestões de como fazer isso”, explicou Luís. “Em leitura, os alunos podem refletir sobre como as plataformas personalizam as notícias. Em matemática, podem investigar o papel das amostras de dados e dos vieses nas previsões de IA.”

Para o especialista, o equilíbrio entre a compreensão técnica e o pensamento crítico é fundamental, pois usar comandos em uma ferramenta de IA pode ser útil, mas não suficiente. “É um equilíbrio importante, porque um é o facilitador do outro. A gente precisa ter um entendimento técnico de como esses sistemas de IA funcionam para depois fazer um uso crítico dessas ferramentas.”

A abordagem também não depende exclusivamente de internet ou equipamentos sofisticados. Muitas competências podem ser desenvolvidas por meio de atividades desplugadas, como análise de notícias impressas, debates sobre fontes, estudos de caso, simulações de tomada de decisão e discussões sobre privacidade, autoria e responsabilidade.

“O currículo todo precisa ser repensado no contexto dos riscos. A essência da competência pode ser demonstrada em qualquer área, em qualquer matéria, tanto offline como online.”

Curtidas mais confiáveis do que evidências?
O debate sobre IA na escola esbarra em um problema que antecede as ferramentas generativas, mas foi ampliado por elas: a fragilidade do ecossistema informacional. Com textos, imagens, áudios e vídeos produzidos em escala por inteligência artificial, tornou-se mais difícil identificar a origem, a intenção e a confiabilidade de muitos conteúdos em circulação nas redes sociais.

Durante o encontro, Adalto Soares, coordenador do setor de comunicação e informação da Unesco no Brasil, defendeu que a IA muda as perguntas que estudantes e professores devem fazer diante de qualquer conteúdo digital.

“Hoje não basta perguntar quem produziu o conteúdo. Também precisamos perguntar: esse conteúdo foi gerado por IA? Foi editado por IA? Que dados alimentaram esses sistemas? Que vieses aparecem no resultado? O sistema é explicável? O conteúdo pode ser verificado? Há transparência sobre autoria, fonte e finalidade?”

Essas diretrizes aparecem no estudo “Media and information literacy for all: closing the gaps” (“Alfabetização midiática e informacional para todos: reduzindo as lacunas”), publicado pela Unesco em 2025, que analisa a presença da alfabetização midiática e informacional nos sistemas educacionais de 194 países.

Segundo dados apresentados no evento, menos da metade dos países analisados (43%) integrou a educação midiática aos currículos nacionais. Cerca de um terço (29%) foca apenas em competências técnicas instrumentais, enquanto 22% ignoram completamente o assunto em suas diretrizes educacionais.

A desigualdade regional também chama atenção. Enquanto a Europa atinge quase a totalidade de integração curricular (93%), a América Latina e o Caribe registram o avanço do tema em apenas 13 dos 33 países da região. Na África, a situação é ainda mais crítica, com a incorporação do letramento midiático restrita a 9% do continente.

O desafio ganha contornos práticos no ambiente digital onde os jovens consomem informação. Outro estudo citado no encontro, “Behind the screens: insights from digital content creators” (“Por trás das telas: percepções dos criadores de conteúdo digital”), também da Unesco, ouviu 500 criadores de conteúdo em 45 países e apontou que 62% não fazem checagem rigorosa e sistemática das informações antes de compartilhá-las. O relatório também mostra que 42% dos respondentes usam curtidas e compartilhamentos como principal indicador de credibilidade de fontes online.

“A lógica da visibilidade pode ser confundida com a lógica da confiabilidade. O conteúdo mais visto, mais curtido ou mais compartilhado nem sempre é o conteúdo mais preciso, mais responsável ou mais baseado em evidências”, reforçou Adalto.

Por: Porvir

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