Jovens transformaram o debate sobre violência contra a mulher em um projeto com entrevistas, grafite, jogo educativo e produções audiovisuais
A obrigatoriedade da abordagem sobre violência contra a mulher nas escolas brasileiras já começa a ganhar espaço dentro das salas de aula e em projetos pedagógicos desenvolvidos por estudantes. Em março deste ano, os ministérios da Educação e das Mulheres regulamentaram a aplicação da Lei n.º 14.164/2021, que prevê a inclusão de conteúdos sobre prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica em todo o país. A medida busca ampliar o debate sobre igualdade de gênero, respeito e enfrentamento à violência desde os primeiros anos da formação escolar.
No Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba, o tema se transformou em um projeto interdisciplinar conduzido por estudantes da 1.ª série do Ensino Médio. Alinhado à ODS 5 da ONU, voltada à igualdade de gênero, a iniciativa reúne diferentes linguagens e formatos para discutir um dos temas mais urgentes da sociedade brasileira.
Segundo a professora Fernanda Ribas, responsável pela mediação do projeto, o trabalho evidencia o olhar crítico e o engajamento social da nova geração. “Eles escolheram esse tema de forma espontânea e estão extremamente envolvidos. Meu papel é de facilitadora, porque as pesquisas, os recortes e as produções são conduzidos pelos próprios estudantes. É muito potente perceber como esses adolescentes refletem sobre questões sociais tão importantes”, destaca.
Diferentes linguagens para discutir um problema social
Escolhido espontaneamente pelos próprios estudantes, o tema “ciclo da violência contra as mulheres” mobiliza cerca de 15 jovens, que se dividiram em grupos para pesquisar e abordar diferentes recortes do assunto. Entre os temas estudados estão relacionamentos abusivos, tipos de violência, machismo no futebol, racismo e violência contra mulheres negras e feminicídio.
A proposta vai além da pesquisa teórica. Os estudantes estão produzindo um jogo de tabuleiro educativo com perguntas e desafios relacionados à violência contra mulheres e meninas, pensado para ser utilizado de forma pedagógica e acessível ao público jovem. A dinâmica inclui avanços e penalidades a partir das respostas dos participantes, incentivando reflexão e diálogo sobre o tema.
“É muito importante trabalhar sobre esse assunto, porque precisamos conscientizar, conhecer, para poder mudar, principalmente os mais jovens. Paradigmas sociais que causam traumas, como é o caso da violência contra a mulher, precisam ser rompidos para que os comportamentos tóxicos que afetam a sociedade deixem de ser ignorados. Nossa geração vai agradecer”, afirma a estudante Sofia Pieri Lodetti de Oliveira.
Outra frente do projeto é a produção audiovisual. Um dos grupos desenvolve um vídeo sobre a violência enfrentada por mulheres no futebol, com roteiro, gravação e edição realizados pelos próprios estudantes. Também fazem parte da iniciativa intervenções artísticas, como a criação de um grafite em uma das paredes da escola, autorizado pela instituição.
Segundo o estudante Gabriel Tancredo Schuchovski, atitudes como esta demonstram a preocupação dos jovens em transformar o cenário. “Apresentar esse tema vai servir para mostrar aos outros jovens o que não se deve fazer contra a mulher. Precisamos evitar que o desrespeito, o preconceito e a violência contra meninas e mulheres continuem a ser tratados como normal”, completa.
Além das produções internas, os estudantes também levaram a discussão para fora da escola. Em uma atividade realizada na Praça Oswaldo Cruz, em Curitiba, os grupos entrevistaram pessoas que circulavam pelo local para compreender o quanto a população conhece e debate questões relacionadas à violência contra a mulher. A proposta buscou confrontar percepções sociais e ampliar o entendimento sobre o tema a partir da escuta da comunidade. A finalização do projeto está prevista para o fim de julho, após o período de férias escolares, e deve reunir diferentes formatos de apresentação desenvolvidos ao longo do semestre.
Mais do que uma atividade escolar, o projeto evidencia como o ambiente educacional pode atuar na prevenção da violência e na formação de uma geração mais consciente, crítica e preparada para identificar, discutir e enfrentar diferentes formas de desigualdade de gênero. Ao transformar pesquisa, arte e escuta social em ferramentas de conscientização, os estudantes colocam em prática um debate que hoje se torna cada vez mais necessário dentro e fora das escolas.
Por: Marista Anjo da Guarda