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A odisseia do adolescente

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

Mais que um poema épico feito há mais de dois mil anos, a Odisseia é uma obra fundante da história humana, pois trata de como o homem pode enfrentar as dificuldades e agruras da vida pessoal, familiar e social sem perder a sua dignidade, controlando as tragédias da vida, uma reflexão profunda sobre a ideia de valores.

Ulisses, o herói grego nela descrito, vive feitos difíceis, complexos de serem realizados e que tiveram um alto custo em vidas humanas e tempo, envolvendo honra e sofrimento, até que a verdadeira maturidade e compreensão fossem atingidos.

Representa aquilo que denominamos “o percurso do herói”, ou seja, todas as agruras a serem enfrentadas antes que uma pessoa possa minimamente ser considerada humana.

De certa forma qualquer adolescente, usualmente mais inclinado a interpretar a seu modo as regras sociais do que a obedecê-las, considera que sua vontade moldará o mundo, e termina por ter de cumprir essa jornada, pelos obstáculos na forma como se comunica, relaciona, e como estabelece ou renega valores e bens simbólicos da comunidade em que vive.

Nesta fase, são constantes os questionamentos sobre como se portar, atuar e pensar em relação a si e aos demais, tentando jeitos inovadores de ver o mundo, mais ideal e reflexivamente do que pela experiência e comportamentos observados entre aqueles mais velhos e, portanto passíveis de rejeição.

Todo adolescente quer ser aceito pelos de mesma faixa etária, seria um infortúnio ser rejeitado pelos seus “iguais”, a companhia dos amigos é agradável em si mesma, e ser aceito por eles significa mérito próprio. A aprovação de colegas da mesma idade termina por merecer que arrisquem quase tudo para obtê-la, e por estarem na fase de descobertas, inovam, protestam, agridem, em comportamentos de tentativa e erro, até que limitações sociais ou familiares consigam impor certas normas de convivência que possam ser aceitas.

Por isso, este momento da vida não é apenas constituído por variações de um processo fisiológico de crescimento, porém de discussão sobre o conjunto de valores assumidos social e culturalmente pelo seu entorno, que dão peculiaridade e significado ao conjunto dos jovens.

A ativação hormonal e o despertar da sexualidade, responsáveis pelo desenvolvimento de características distintas das fases anteriores, pode trazer também certa agressividade, e os coloca num mundo social à parte, transitório, de passagem e preparação para a vida adulta. E isso pode ser particularmente confuso para aqueles em situação de vulnerabilidade social.

Nestas últimas semanas, notícias de que na Zona Sul do Rio, jovens provocaram tumulto com pessoas em pontos de ônibus saindo da praia em vários dias, tendo recebido spray de pimenta depois que dezenas de jovens foram filmados quebrando e pulando pela janela do coletivo.

Essas depredações vêm se tornando comuns há anos, e não tem sentido prático para o suposto objetivo de realizar furtos ou mesmo não pagar a passagem, o desvio de atenção seria ineficaz e até desnecessário. As agressões são sintoma do que se poderia chamar “desespero social”, o sentimento coletivo de desimportância perante os outros e impossibilidade de realização material e, consequentemente, pessoal.

Há alguns anos foi inaugurado mais um shopping center em Curitiba, com todas as pompas e promoções de hábito. Esse estabelecimento, como muitos do gênero, era destinado ao atendimento da classe média privilegiada, mas logo nos primeiros finais de semana recebeu a visita de grupos de jovens que não constituíam sua clientela desejada. Esses adolescentes, dentro de seu direito mais incontestável, queriam conhecer o novo templo de consumo e diversão de sua região, mas sentindo que os demais frequentadores e lojistas não os acolhiam, o que talvez tenha sido uma percepção exagerada ainda que verdadeira, assumiram posturas defensivas e supostamente agressivas falando alto demais e desafiando os demais. Infelizmente, não houve da parte de nenhum dos envolvidos direta e indiretamente o bom senso e a razoabilidade necessários, e sim reforço na “segurança” e dificuldades para a entrada.

Depredação de coletivos também tem acontecido, e certamente os grupos demonstram grande hostilidade pelas pessoas que atacam para roubar e ofender. A insegurança e o sentimento de exclusão são terríveis para o adolescente, e para aqueles alijados do consumo desenfreado da época atual, onde ostentar é quase mais importante que ter, onde “você é aquilo que pode mostrar”, se já não é fácil para aqueles cujos pais têm razoável poder aquisitivo, provoca desespero naqueles com nada ou quase nada para gastar.

Assim, a odisseia destes jovens é também povoada de monstros, bruxas e gigantes com acesso ao poder financeiro e até as várias modalidades de grande corrupção, enquanto a eles apenas restam as várias contravenções ou a vida miserável dos pequenos criminosos.

Uma vida de estudos poderia salvá-los desta jornada, mas não será fácil convencê-los disso.

Por: Professora Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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