Transparência só disciplina o poder quando há quem saiba ler e questionar o que é divulgado
A Agenda de Políticas Públicas para 2027-2030 do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) conta com cinco prioridades: fortalecer a integridade no setor privado, reforçar a autonomia dos reguladores, preservar os avanços na governança das estatais, assegurar a responsabilização dos administradores diante das novas tecnologias e elevar a transparência das informações corporativas.
A palavra educação não aparece entre elas e, no entanto, nenhuma dessas prioridades se sustenta sem educação. A razão é simples. Governança não é feita de regras, mas de pessoas que as interpretam e as aplicam.
Importante lembrar que integridade não se decreta. Exerce-se por indivíduos capazes de discernir um dilema, avaliar consequências e resistir ao atalho conveniente. Transparência só disciplina o poder quando há quem saiba ler e questionar o que é divulgado. O que dá vida a toda a agenda é a capacidade de pensar criticamente e de traduzir princípios em conduta, que se forma, ou se atrofia, muito antes da sala de reuniões. O lugar para o desenvolvimento da análise crítica do indivíduo está na escola.
E aqui fica a pergunta. Como está a qualidade do ensino?
A resposta é dupla. Como esforço, o Brasil não está atrás: gastamos cerca de 5,6% do PIB em educação (2022), acima da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (cerca de 5,1%) e do mundo (aproximadamente 3,9%), segundo o Banco Mundial.
O problema aparece quando se olha para o que chega a cada estudante: US$ 3.762 por aluno, cerca de um terço da média da OCDE. E a nossa meta legal — a meta 20 do Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014), que fixava 10% do PIB até 2024 — nunca foi cumprida. O investimento chegou ao pico de 6,3% em 2017 e recua desde então. A pergunta central, portanto, é “quanto é investido em educação por aluno” e “quão bem acontece esse investimento”. A OCDE é categórica: escolhas inteligentes de gasto predizem desempenho melhor do que o volume. Luxemburgo investe US$ 288 mil por aluno e pontua abaixo de Irlanda, França e Itália, países que gastam menos da metade disso.
A OCDE lembra que bons sistemas exigem docentes preparados não só no conteúdo, mas na prática de ensinar. No Brasil, o indicador de Adequação da Formação Docente do Inep (2025) mostra que apenas 58,7% dos professores dos anos finais do fundamental têm licenciatura na disciplina que lecionam. Quatro em cada dez docentes ensinam algo para o qual não se formaram. Sem formação sólida e carreira atrativa, nenhum método se sustenta.
Os resultados medem o preço dessa conta. No Pisa 2025, o Brasil obteve 409 pontos em ciências, 408 em leitura e 377 em matemática, contra médias da OCDE de 482, 461 e 463. Quase metade dos jovens de 15 anos — 43,8% — está abaixo do nível básico nas três áreas simultaneamente; apenas 1,8% alcançam o topo. Há um dado que merece reconhecimento: o Brasil foi o único país a manter o desempenho estável nas três áreas desde 2015 enquanto ampliava a cobertura escolar. Incluímos mais alunos sem perder qualidade. É um avanço real. Mas é um avanço a partir de um piso baixo demais.
O que mais deveria nos inquietar é o exemplo de quem partiu de onde estamos. Em 2000, a renda per capita da China era cerca de um quarto da brasileira (US$ 969 contra US$ 3.767); em 2023, já a superava (US$ 12.951 contra US$ 10.378), e seus estudantes nas províncias avaliadas lideram o mundo em matemática — ainda que o Pisa cubra ali apenas quatro regiões prósperas (Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang) e não o país inteiro.
O Vietnã, mais pobre que o Brasil e gastando muito menos por aluno, marca 443 em matemática — 66 pontos acima dos nossos 377 — com apenas 26% dos alunos abaixo do nível básico. Portugal, tão próximo de nós, estava entre os piores da Europa Ocidental no início dos anos 2000 e hoje figura na média da OCDE (460 em matemática). A OCDE aponta China, Vietnã e Coreia como economias que a transformação educacional colocou numa trajetória de crescimento sustentado. A lição não é gastar por gastar: é tratar a aprendizagem como projeto nacional, com continuidade que atravessa governos.
E aqui chegamos ao ponto que transcende a economia. O grande alerta do Pisa 2025 é a erosão da leitura e do pensamento crítico. Estamos falando da capacidade de interpretar, conectar fontes e construir sentido, justamente as competências que a era da inteligência artificial mais recompensa.
A proporção de “leitores apressados”, que percorrem um texto e respondem rápido e errado, quase dobrou desde 2018. Isso não é um problema apenas de produtividade. Princípios e valores só viram prática em quem sabe distinguir sinal de ruído, avaliar um argumento e recusar a manipulação.
A educação não é vizinha da governança: é a sua base.
Claro que a boa governança se cultiva também na educação continuada de líderes e conselheiros. Tanto que o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC estabelece que o conselheiro deve buscar “aprimoramento constante de suas competências” e que cabe ao presidente do conselho estimular sua educação continuada.
O Brasil, aliás, tem escolas de negócios reconhecidas internacionalmente, com programas executivos entre os melhores do mundo. Mas é justamente quem atua nesse andar que melhor enxerga o limite. Um conselho excelente não compensa uma sociedade que não forma pensadores críticos, porque é dessa mesma base que saem os profissionais, os quadros técnicos e os cidadãos que fiscalizam as instituições. Investir na base e qualificar a liderança não são escolhas concorrentes: são o mesmo projeto de sociedade melhor.
O propósito do IBGC que é “uma governança corporativa melhor para uma sociedade melhor” começa, portanto, antes de qualquer agente de governança ou conselho de administração. Investir em educação, na sua qualidade e eficiência é a base da agenda estratégica.
A educação deve ser tratada como tema primordial para o presente e o futuro de nosso país. Talvez seja a política de governança mais estrutural que precisamos. Ou seguiremos aperfeiçoando o desenho das instituições sem formar as pessoas capazes de fazê-las funcionar.
Por: Valor Econômico