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É possível falar de mudanças climáticas na Educação infantil?

Por Paula Sestari

Como promover vivências e abordagens que estimulem as crianças a terem vínculos com a natureza e responsabilidade ambiental

Olá professoras e professores! Em 2014, eu recebi os prêmios de Educador Nota 10 e de Educador do Ano com o projeto: Baía da Babitonga, nosso berçário natural, desenvolvido com uma turma de pré-escola da Educação Infantil. O principal intuito foi mostrar como o território ao redor da escola pode se transformar em espaço de investigação, descoberta e aprendizagem.

Mais de 10 anos depois, e com a intensificação da crise ambiental, resolvi revisitar meu projeto e entender que mudanças ocorreram na sociedade e pensar, compartilhando com vocês, como é possível, e necessário, abordar mudanças climáticas na Educação Infantil, sem alarmismo, mas de forma consistente.

Projeto, Meio Ambiente e as crianças

O projeto Baía da Babitonga, nosso berçário natural, propunha um olhar intencionalmente pedagógico para a relação das crianças com o Meio Ambiente, a partir de uma premissa importante: problematizar o cotidiano.

Assim, o objetivo era destacar questões que parecem normalizadas, de causar alguma estranheza em relação àquilo que está à frente dos olhos e, muitas vezes, não mobiliza mais as pessoas. Nesse contexto, ainda evitávamos vislumbrar questões ligadas à crise climática de forma tão concreta como temos hoje.

Mudanças

Fazendo uma reflexão sobre o que mudou nessa visão da relação da Educação infantil com o Meio Ambiente de lá para cá, principalmente neste contexto de extremos climáticos, entendo que se tinha a ilusão de que apenas provocar o encantamento e sensibilização das crianças para a temática, trabalhar a partir de materiais de sucata, abordar noções de sustentabilidade como demonstração, poderiam fazer com que a educação numa perspectiva ambiental, fosse causar algum impacto no desenvolvimento das crianças e, por consequência, elas cresceriam mais propícias a discutir tais questões com seus pares.

Diante da crise climática que estamos vivenciando e sentindo seus impactos, cada região à sua maneira, o que continua fundamental é promover situações que as crianças possam ampliar seus conhecimentos sobre o mundo físico e natural, para que sejam capazes de compreender e explicar a realidade que as cercam.

Porém, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), outras competências são necessárias, desde a Educação Infantil, que resultem em ações mais concretas, tanto nossas enquanto professores, quanto das crianças.

Competências relacionadas à Educação climática e ambiental

Nesse sentido, sempre adaptando a abordagem às idades das crianças, nós podemos trazer situações para o desenvolvimento do pensamento crítico e criativo para se investigar causas, levantar hipóteses e formular soluções para questões reais como enchentes, alagamentos ou o aumento de carros elétricos e utilização de painéis solares.

Estimular a capacidade de argumentação para questionar a realidade e se utilizar de fontes confiáveis para desenvolver relações mais saudáveis de consumo com o meio ambiente, o que é fato e o que é desinformação sobre as mudanças climáticas.

Ajudar as crianças a se verem como parte da natureza e como ser que contribui, que impacta e que sofre diretamente as consequências das mudanças climáticas, passando pelo cuidado com as questões ecológicas até os cuidados com as relações e as emoções.

Algo que o projeto não pretendia, e que cabe ainda hoje, é não querer delegar às crianças a responsabilidade de contrair uma relação diferente com o meio ambiente. Isso precisa ser feito em conjunto conosco.

Sim, precisa ser diferente mas, para esta geração, para hoje, para agora, e junto com eles, sermos agentes de transformação com um olhar que se espante, se indigne com diferentes setores para gerar mudanças.

E, sobretudo, a competência da responsabilidade e cidadania para que aprendam sobre a importância de tomar decisões que considerem o coletivo e os princípios democráticos e sustentáveis de convivência em sociedade.

Como fazer na prática

Se eu retomasse o projeto hoje, traria as questões emergentes da crise climática sob ponto das mudanças percebidas no território com discussões sobre:

● Os constantes avisos de alerta de tempestades enviados pela defesa civil local, as mudanças bruscas nas temperaturas, que são questões perceptíveis e vivenciadas pelas crianças. Nesse sentido, levaria as crianças a identificar gráficos simples, a fazer comparações do tempo, das temperaturas, por períodos curtos e a localizar informações que as deixem mais seguras, em meio às situações vivenciadas.
● Ampliação do vocabulário e repertório das crianças trazendo experiências para discutirmos temas como: aquecimento global, eventos climáticos extremos, degradação ambiental, biodiversidade, transição energética, energias renováveis, consumo consciente e justiça climática.
● A ideia de falar sobre crise climática é urgente, mas não precisa ser num tom catastrófico para as crianças, pois enquanto ecossistema, precisamos nos reinventar. O ponto alto é fortalecer os vínculos das crianças com o meio que é parte de seu cotidiano e apoiá-las a cultivar decisões concretas de cuidado e respeito com a natureza que incluam questões científicas de causa e consequência, desenvolvendo o pensamento crítico.

Falar sobre crise climática na Educação Infantil não é assustar as crianças sobre o que já fizemos de “errado”, mas sim, sobre dar ferramentas para que elas compreendam o mundo de forma consciente.

O que permanece atual daquela experiência, é que as crianças não devem carregar a responsabilidade sozinhas pela crise climática, mas têm o direito garantido pela BNCC de vivenciar experiências pedagógicas que estimulem o pensamento crítico, a responsabilidade ético-ambiental e o vínculo afetuoso com a natureza.

Por: Portal Nova Escola

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